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Cidades
21/02/2010 - 07:00

Trabalho pesado, quem é que quer?


A vida dos que trabalham com o que a maioria não quer


Vinícius Ferreira
ESTAGIÁRIO

VINÍCIUS FERREIRA

LUCAS RIBEIRO, 40, ex-mecânico, e Wilson, que está “descansando” de ser pedreiro: em busca de novos trabalhos junto à BR-381
Salário alto e jornada reduzida, de preferência sem nada mais pesado para fazer. Esta é a combinação dos sonhos de quase todo profissional, mesmo aqueles conhecidos como workaholics, os viciados em trabalho. Porém, existe uma categoria de operários que todos os dias acorda trafegando na contramão desta tendência. São os chamados ‘chapas’ ou ‘changueiros’, que saem de casa exatamente em busca de cargas para colocar sobre os ombros. Mas, como é que eles entraram na atividade? Seria uma atitude voluntária, uma escolha ou apenas uma contingência da vida, pura questão de necessidade?

Era quinta-feira, 4 de fevereiro, por volta das 14h, quando o caminhoneiro Alécio Duarte, de 48 anos, partia de Criciúma, no Estado de Santa Catarina, com destino a Ipatinga. Ele veio entregar um carregamento de 27 toneladas de pisos em locais distintos no Vale do Aço e também em Governador Valadares. Alécio dirigiu o seu caminhão da marca Iveco, série 320, fabricado em 2008. A carga tem o máximo da capacidade que o caminhão pode suportar, e durante quatro dias Alécio cruzou dois estados até chegar ao território mineiro. “Eu prefiro dirigir durante o dia, é mais tranqüilo, mais seguro. À noite eu paro nos postos e durmo. Minha segurança em primeiro lugar”, diz o caminhoneiro. No final da tarde do último dia 7, um domingo, ele chegou a Ipatinga e estacionou seu caminhão no Auto Posto Usimec, que fica à margem da BR-381. Alécio não conhece nada em Ipatinga, nunca veio à cidade e não sabe os locais onde deve fazer as entregas. Mas para ele, isto não tem problema. Logo pela manhã, irá procurar alguns ‘chapas’ para auxiliá-lo.
 
Quem são os chapas?

Embora sejam encontrados na totalidade do território nacional, desde os grandes centros às pequenas vilas, os ‘chapas’ são conhecidos, reconhecidos ou percebidos por poucos. Como não se trata de uma profissão de status, muitas vezes parecem invisíveis, com a presença solenemente ignorada. Contudo, a remuneração não é das mais desprezíveis e, algumas vezes, eles chegam a faturar tanto numa única semana que produzem as suas próprias folgas nas semanas seguintes.

Eles ficam em pontos estratégicos, nas entradas das cidades, ou mesmo nas praças, preferencialmente nas proximidades dos postos, onde os caminhoneiros passam. Em Ipatinga, se precisar de um, é só ir ao Auto Posto Usimec, próximo ao Shopping do Vale, ou na saída para Governador Valadares, no Posto Faisão IV, no Bairro Veneza, também à margem da BR-381. Apenas nestes dois lugares, cerca de 30 homens estão todos os dias de prontidão, aguardando uma oportunidade. Costumam chegar entre as 5h e 6h30 da manhã, e ficam lá até conseguirem um trabalho. Muitas vezes, por volta das 17h eles ainda estão lá, acenando para os caminhões que passam, esperando que alguém os contrate.

Logo cedo, ao chegar à região, Alécio tentou saber junto aos frentistas do posto onde ficavam os ‘chapas’. “É fácil de achar, debaixo daquelas árvores ali, eles ficam lá”, diz um frentista, apontando para uma generosa sombra junto ao acostamento da BR-381, que no perímetro urbano de Ipatinga é chamada de Avenida Pedro Linhares. Quando você começa a se aproximar do local deles, dois ou três já saltam à frente, prestativos. É um mercado disputado. “Preciso dos ‘chapas’ para me ajudar a descarregar o caminhão nos locais indicados, e para me levarem até lá também. Já fechei negócio com estes dois aqui. Daqui a pouco devemos começar as entregas”, conta Alécio, apontando para Wilson Carlos Silva e Lucas Ribeiro, dois dos carregadores disponíveis.
 
Relação de confiança

VINÍCIUS FERREIRA

ALÉCIO: “Eu sou do tempo que bigode valia mais que identidade”
Apesar da tradição, ‘chapa’ é uma gíria antiga, não mais usada, ao menos pelos mais novos. A gíria quer dizer “amigo, companheiro, cara gente boa”, denota uma qualidade interessante: confiança. É uma relação de mão dupla: os caminhoneiros precisam dos ‘chapas’ para auxiliá-los, e os ‘chapas’ precisam do trabalho. Assim, sempre que possível os caminhoneiros procuram os mesmos ‘chapas’, na garantia de pegar alguém que agüente o serviço, e que já tenha mostrado que é de confiança.

Esta necessidade tem explicação. Deixar um desconhecido entrar na cabine do caminhão e servir de guia não é uma coisa tão simples. Tem muito ladrão de estrada que se passa por ‘chapa’ para conseguir vítimas. Lucas, um dos carregadores contratados por Alécio, contou que certa vez apareceu um jovem para trabalhar no mesmo ponto que eles. “Só sei que ele ficou aqui dois dias, pegou um caminhoneiro e roubou R$ 600 dele. Sujou o nosso nome aqui. Enquanto estamos todos lutando para ganhar a vida, vêm uns vagabundos e fazem esta bagunça”, queixa-se.

Alécio conta que, em suas viagens, tem lugar que ele evita pegar carregadores, devido aos perigos. “Em São Paulo e Rio de Janeiro eu evito ao máximo buscar ajuda, evito até pedir informação. É muito perigoso lá; aqui é mais tranqüilo, no sul também, mas mesmo assim tem que ficar de olho aberto”, afirma.

Existem pessoas com más intenções tanto no meio dos ‘chapas’ quanto entre os caminhoneiros. Alécio conta que tem muito caminhoneiro que trata um valor com os ‘chapas’ e não paga. “Para você ver o meu caso. Eu conversei com eles já, ajustamos um valor, tudo correto. Mas só vou tirar o caminhão daqui e começar quanto tiver o dinheiro em mãos. Tô esperando o chefe mandar. Não vou correr o risco de sair com eles e não pagar. Tem muita gente que faz isto, sabe? Pede que o cara o leve a determinado lugar, tá sem dinheiro, e depois não paga. Eu sou do tempo que bigode valia mais que identidade, e cada fio deste aqui mostra que eu sou homem para honrar com meus compromissos”, afirma Alécio, mostrando seu bigode.
 
Desempregados

Lucas Ribeiro, 40, trabalha como carregador e descarregador de caminhões há três anos. Antes, era mecânico, trabalhava com carteira assinada em uma empresa da região. “Quando saí, continuei procurando outro emprego, mas não consegui. Aí me falaram deste trabalho, e como tenho que conseguir dinheiro eu vim”, conta. Mas ele não pretende continuar muito tempo na atividade. “Eu quero conseguir assinar a minha carteira de novo, voltar a trabalhar de mecânico”, afirma. Ele é morador do Bairro Limoeiro, divorciado e tem uma filha de 17 anos. Segundo diz, o salário que consegue tirar como ‘chapa’ é bom, chegando a se comparar ao tempo que ele tinha carteira assinada. “Às vezes eu tiro até mais de R$ 700 aqui, só na semana passada ganhei R$ 422. Mas nem sempre é assim. Tem semana que não tem nada mesmo”, relata. Para servir de guia para Alécio, e descarregar o caminhão, Lucas vai dividir com outro chapa entre R$ 400 e R$ 500. “Como é muito piso para descarregar, e são vários locais, acho que eu e o Wilson vamos demorar uns dois dias para fazer o serviço. Mas se fosse em um lugar só, com umas seis horas a gente descarregava estas 27 toneladas”, afirma Lucas.

Alécio diz que o valor acertado com os ‘chapas’ é um valor alto, devido ao tipo de produto que vai ser descarregado. “Aqui em Minas, o produto mais caro que eles cobram é o piso, quase uns R$ 20 por tonelada. Lá no sul, o mais caro é o cimento, que é pior para carregar, e precisa de mais gente”, explica o caminhoneiro.
 
Trabalhadores informais

Wilson Carlos Silva Souza já foi pedreiro, mas agora trabalha como ‘chapa’. “Tem mais ou menos uns dois anos que eu estou aqui. Quero descansar de ser pedreiro um pouco. Já que o salário é a mesma coisa que eu conseguia como pedreiro mesmo, uns R$ 700, vou ficar aqui mais um pouco”, conta ele, que diz ainda que pretende voltar a ser pedreiro, “mas, depois”. Wilson é morador do Bairro Bom Jardim, e chegou por volta das 6h da manhã para trabalhar. “Sempre tento chegar cedo, para conseguir bons trabalhos. Tenho uma esposa, cinco filhos e uma netinha para cuidar”, revela.
 
Jovens sem estudo

Um dos ‘chapas’ mais jovens que ficam próximo ao Auto Posto Usimec é Ismael Alves, 23. Desde os 17 ele trabalha como ‘chapa’, no mesmo local. Com o tempo, conseguiu um bom número de caminhoneiros que gostam do seu trabalho. “A minha renda mensal, quando o mês está  bom, é uns R$ 900. Costumo pedir entre R$ 10 a R$ 15 por tonelada que eu tenho que descarregar, mas tem mês que não sai nada. Começo de ano é difícil, mas depois do carnaval tudo melhora”, explica. Ismael conta que não terminou o ensino fundamental por causa do trabalho. “Não estudei porque não tinha dinheiro, nem oportunidades, só tinha que trabalhar. Pretendo voltar a estudar, mas é difícil, eu tenho que colocar dinheiro em casa, acaba que fico o dia todo aqui”, conta.

 

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